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biblioteca

“O que a gente tem que fazer, é uma reinvenção da biblioteca”, me contou por telefone a diretora de educação e cultura do Instituto Ecofuturo, Christine Fontelles, “[a biblioteca] não pode ser mais um lugar que tenha só obrigação de guardar/organizar livros. Tem que ser um lugar que organize a leitura, um lugar que chame o leitor, que o ajude”. E é esse o projeto que passou a existir depois da aprovação da lei 12.244/10, que diz que “todas as instituições de ensino público e privado do Brasil deverão possuir uma biblioteca até 2020”.

Sim, uma biblioteca por escola. Para que se tenha noção da dimensão, segundo o Censo 2012, só no Estado de São Paulo, existem 5830 escolas estaduais, 12.492 escolas municipais e 27 federais, sendo, ao total, 18.349 escolas, sem incluir as de ensino particular (pagas). Ainda no âmbito de pesquisas nacionais, o “Retratos da Leitura no Brasil”, de 2007, apontou que todo leitor brasileiro lê, em média, apenas 4,7 livros por ano.  Quatro vírgula sete.

Não bastasse este complicado número, a lei ainda afirma que, além da construção de bibliotecas, o acervo deve ser equivalente a, no mínimo, um livro por aluno matriculado o que, de acordo com dados do MEC, nos permite o número de 5.800 alunos matriculados apenas no ensino fundamental das escolas públicas do Estado de São Paulo.

Mas, nem tudo parece ser impossível. “A lei é um marco regulatório e é mais uma oportunidade do que um problema, isto é, ela apenas sinaliza a importância que o país tem visto em amplificar o espaço de leitura”, conta Christine, “caberá à sociedade e as escolas/educadores discutirem se essa quantidade atenderá à demanda, porque isso é uma coisa muito específica”.

Quero minha biblioteca

Mais do que a efetividade do caso, Christine explica que o Brasil tem que tentar formar um leitor anterior ao processo da criação da biblioteca. “Nós vivemos em uma sociedade que não vê importância na “educação para ler”. É como se a leitura fosse um ato espontâneo, que surgisse na escola junto com a alfabetização”, explica, “se a gente for fazer apenas espaços com livros, não vai adiantar nada. Existem diversos outros programas que já fazem isso, inclusive, [inserir acervos literários de qualidade dentro de ambientes públicos], mas não existe a intimidade do educador com esse material para que este insira no futuro leitor. A biblioteca tem que estar dentro desse contexto”.

Contexto do leitor. Espaço para o leitor. Espaço para ler. Isto é uma biblioteca e é este o objetivo do projeto “Eu quero minha biblioteca” que, com informações gratuitas e toda uma assessoria especializada, ajuda toda a sociedade com a construção de um país leitor, um Brasil que lê e que terá, até 2020, espaços físicos para se sentirem em casa.

Vá ler um livro: A lei 12.244/10 diz que “todas as instituições de ensino públicas e privadas do Brasil deverão possuir uma biblioteca até 2020″. Mesmo ajudando neste processo, você vê uma possibilidade de efetividade desta lei?

A determinação de que deveremos ter uma biblioteca por escola é da lei. Mas, acho bastante difícil… Vai ter que haver uma negociação ou um pacto para que isto seja efetivado em um prazo possível dentro da realidade do Brasil. Claro que é um pacto que tem que ser construído a várias mãos e, mais do que uma biblioteca, tem que ter um lugar com um acervo diversificado, que atenda às demandas da escola, etc. É importante que haja, por exemplo, o contato com diversos gêneros de leitura para entender qual deve ser o foco em todos os sentidos e tudo deve ser compreendido como um espaço educativo que irá se referir ao propósito da escola e da educação.

Vá ler um livro: E de todos esses passos necessários para a efetivação do projeto (a criação de bibliotecas) qual você acha que será mais difícil? A gestão, a construção, a permanência com qualidade…?

A primeira coisa a se pensar é na contratação de pessoas formadas para se ter uma biblioteca de qualidade e o mais desafiador é a formação pessoal das pessoas que irão trabalhar nessas bibliotecas.

Nós vivemos em uma sociedade que não vê importância na “educação para ler”. É como se a leitura fosse um ato espontâneo, que surgisse na escola junto com a alfabetização. E a experiência histórica é que, como qualquer outro valor ou outra habilidade, a leitura deve ser inserida ainda na infância. A gente tem o hábito de oferecer artes em geral, mas dificilmente leitura. Então, nós teremos que inserir esse “objeto livro” antes da escola. E esse planejamento, para construir essa interatividade com a leitura, é muito complicado e demorado.

Uma pessoa que escreve um livro de literatura, por exemplo, escreve com intencionalidade. Ela coloca a palavra, a onomatopeia, o som e tudo isso é pensado na construção da obra. Eles escrevem aquele texto de uma forma poética e direta, musical, para que atinja diretamente o leitor. E essa intenção, em qualquer formato, terá que ultrapassar o objeto livro e terá que ser desenvolvido na experiência do funcionário para que, quando a criança chegar à escola, no ambiente de alfabetização, ele [o funcionário] consiga fazer um trabalho adequado. Então, de tudo que é mais desafiador, é a construção dessa noção. Porque se a gente for fazer apenas espaços com livros, não vai adiantar nada. Existem diversos outros programas que já fazem isso, inclusive, [inserir acervos literários de qualidade dentro de ambientes públicos], mas não existe a intimidade do educador com esse material para que este insira no futuro leitor. A biblioteca tem que estar dentro desse contexto… Da mesma forma que você tenha um lugar específico para prática de esportes, informática, ciências, etc., a biblioteca também tem que existir, mas tem que atuar de forma correta e não ser um lugar de castigo – até porque não é incomum usar a biblioteca como ambiente de detenção, etc. E isso é um trabalho de toda uma vida, é difícil, mas não impossível.

Vá ler um livro: A lei foi aprovada um ano antes da última pesquisa de “Retratos da Leitura no Brasil” que, dentre outros dados, apontou que os itens que mais fariam o cidadão brasileiro (leitor) ir a uma biblioteca, seriam, em ordem de preferência, “livros novos”, “títulos mais interessantes” e “atividades culturais”. Até que ponto você acha que vai ser viável a construção de uma biblioteca que apresente, dentre outras coisas, esses pontos destacados?

Acredito que a gente tem que ter um pensamento convergente que nos ajude a trabalhar para que exista um espaço para leitores. Há alguns meses, por exemplo, surgiu um lançamento em Madri que chamava “Casa dos Leitores”. Eles trabalhavam, entre outras coisas, com a formação de leitores a partir de nove meses e ofereciam, neste lugar, outras atividades culturais. Então, veja bem, nós temos um lugar na Europa que acabou de criar um espaço que chama “casa do leitor” e não “casa dos livros”. Portanto, o que a gente tem que fazer, é uma reinvenção da biblioteca. Ela não pode ser mais um lugar que tenha só obrigação de guardar/organizar livros. Tem que ser um lugar que organize a leitura, um lugar que chame o leitor, que o ajude.

Vá ler um livro: E no Brasil?

Um dos exemplos aqui no Brasil é a Biblioteca São Paulo, que fica no Parque da Juventude (onde era o Carandiru). Ela tem facebook, tem um trabalho de recepção das pessoas, é um espaço pensado para conforto… Ela funciona a noite, aos finais de semana, aos feriados e ainda fica dentro de um parque. Então, na realidade, o que se tem que pensar, é a concordância com a vida das pessoas. É como as grandes marcas que se reinventaram para poderem se adaptar ao cliente. Então, como um todo, a biblioteca precisa se atualizar e se tornar atraente. É absolutamente necessário que haja ideias e projetos para formar leitores. Se você entrar uma biblioteca que, por exemplo, lhe ofereça uma assessoria, como cliente, onde haja alguém que te pergunte qual tipo de leitura você gosta, etc., assim como a gente já tem em boas livrarias, isso muda tudo, traz vontade ao leitor. A gente precisa colocar isso em prática.

Vá ler um livro: E quanto à questão de quantidade de obras oferecidas? A lei ainda diz que, além das bibliotecas, é obrigatória a existência de um exemplar por aluno matriculado, o que é um número consideravelmente assustador considerando a quantidade de alunos que existem nas escolas públicas, por exemplo… (Só em São Paulo, segundo dados do MEC, apenas no ensino fundamental da escola pública, são, ao total 5 milhões e 800 alunos, aproximadamente):

A lei é um marco regulatório e é mais uma oportunidade do que um problema, isto é, ela apenas sinaliza a importância que o país tem visto em amplificar o espaço de leitura. A sociedade e as escolas/educadores terão que discutir se essa quantidade atenderá à demanda e a sociedade, porque isso é uma coisa muito específica. Terá que haver uma noção coletiva de “que tipo de realidade eu tenho/eu vivo”. Eu não acredito muito nessa pré-determinação. Quando essa lei vem, e veio de um trabalho de sete anos, ela deixa espaço para discussão mesmo, essa é a ideia. Até sua efetivação muita coisa pode mudar ainda e nenhum governador, nem ninguém, pode determinar qual é a demanda e/ou necessidade de cada sociedade em específico. Por isso é muito importante que haja um espaço de debate e discussão. A própria sociedade deverá decidir, à luz do que é legal, se funciona ou não. A partir do momento que haja essa discussão entre política, educadores, instituições e sociedade como um todo, vai funcionar.

Vá ler um livro: Como surgiu a ideia do Ecofuturo adentrar neste projeto da biblioteca? Como está sendo o resultado?

A ideia de encabeçar esse projeto surgiu por conta de experiência de campo. Há treze anos o Ecofuturo trabalha com a “Fundação Nacional de Livro Infantil/Juvenil” para apoiar a criação de bibliotecas abertas à comunidade e a gente descobriu que o público local desconhecia da existência de possíveis ajudas do governo que poderiam colaborar com a criação de bibliotecas e/ou espaços culturais. Então, a gente incluiu no projeto, uma dinâmica no estilo de oficina para mostrar à comunidade as possibilidades existentes para ajudá-la e isso foi crescendo…

Vá ler um livro: Mas, como é o trabalho de vocês exatamente? E das empresas coligadas parceiras?*

Então, a lei está aí, vai vigorar e deve ser acolhido pela gestão municipal e sociedade e nós temos a informação para ajudar com isso. Então, os parceiros, se unem com princípios em comum: compartilhar a existência da lei, informar os recursos existentes para a criação e manutenção de bibliotecas e manter uma rede de interface constante buscando envolver os públicos de relacionamento de cada organização para ampliar a capitalização da campanha e com isso criar um ambiente onde todos se sintam participantes.

E a gente vai compartilhando dicas para formação do leitor, organização, educação, a importância da literatura e várias publicações onde as pessoas podem encontrar de uma forma bastante atraente informações de qualidade para alimentar o repertório pessoal. A gente pensa nesse ponto de intercâmbio de informações, desse conhecimento, para todos os públicos, porque é absolutamente fundamental, ainda mais em um país com essa dimensão geográfica como o Brasil, contribuir com todas as organizações, gestões públicas e sociedades para que tudo dê certo, porque, afinal, a construção de um leitor, é um trabalho para a vida toda.

*De acordo com o site, o Ecofuturo possui parceria com as empresas: “Trip Editora”, “Academia Brasileira de Letras”, “FNLIJ”, “Instituto Ayrton Senna”, “Rede Marista de Solidariedade”, “Governo do Estado de São Paulo”, “Brasil Literário”, “FTD Editora” e apoio e edição do “Jornal e Educação ANJ”.

Em 05/08/13  |  (Des)Contextuado, Colunas, Entrevistas, News

Tatiany Leite Jornalista, viciada em literatura (do tipo: não vive sem) e a todo momento pode ser encontrada com um livro (ou mais) colado aos óculos. Fez parte do projeto Tudo de Blog da Revista Capricho (2009) e atualmente trabalha como assessora de imprensa e mídias sociais na editora LeYa.
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