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Quando conheci Ursula K Le Guin

Todo mundo tem aquele autor que acha que existe apenas na capa do livro da sua cabeceira. Quer dizer, pelo menos eu acho que todo mundo gosta daquele escritor, que conheceu em um livro por acaso, de alguma maneira aleatória que nem lembra qual e que, mesmo gostando tanto, acabou esquecendo de usar a tecnologia a seu favor para ver a procedência e história. De onde veio? Por que escreve? Existem mais fãs ao redor do mundo?
Talvez esse seja um caso inspirado na história da – possivelmente italiana – Elena Ferrante. Que acredita piamente que, de um escritor, o que importa é a literatura. O que vem antes, enquanto ou depois (na biografia pessoal de quem escreveu a obra), não faz diferença. Possivelmente tenha sido por isso que me inspirei em não ir pesquisar sobre Ursula K. Le Guin. Como recém leitora de ficção científica (algo que eu poderia me envergonhar, mas ao contrário me orgulho, pois antes tarde do que… não ler at all), descobri “A mão esquerda da escuridão”, um livro difícil, que traz um terráqueo em um planeta onde não existem gêneros e nem diferenças pelo aspecto físico (ou pelo símbolo fálico): Seria nosso sonho?

“Fardo e privilégio são compartilhados de modo bem igualitário; todos têm o mesmo risco a correr ou a mesma escolha a fazer. Portanto, ninguém aqui é tão completamente livre quanto um macho livre, em qualquer outro lugar (…) Não existe nenhuma divisão da humanidade em metades forte e fraca, protetora/protegida, dominante/submissa, dona/escrava, ativa/passiva. Na verdade, pode-se verificar que toda a tendência ao dualismo que permeia o pensamento humano é muito reduzida”.
A mão esquerda da Escuridão – Ursula K. Le Guin

Acontece que, na vida real, fui impactada com a trágica notícia da morte da autora, já senhorinha, com 88 anos em uma casinha em Portland. Como só li uma matéria no New York Times (graças ao twitter), ainda acreditava naquela teoria de que aquela mulher de cabelos brancos só tinha impactado minha humilde mente, até me deparar com os mais distintos amigos, sites, blogs, canais, fóruns e corações, em luto, por causa da morte da rainha da ficção científica, a primeira de seu nome, dona da p**** toda.
Por conta da repercussão, fui (que bom) entender melhor quem era aquela que tinha me aterrorizado com sua escrita cheia de detalhes e fiquei, no mínimo, estupefata.



Ursula defendia a literatura e, mais do que isso, os escritores. Principalmente os de ficção e, mais ainda, as mulheres. Essa mesma escritora gostava de sempre recapitular que não lutava por ninguém, porque luta é uma palavra bélica, que remete à guerra, e ninguém tem que guerrear aqui, all we need is love… E literatura, claro.
 Seus livros foram traduzidos pra mais de 40 línguas, venderam milhões de cópias e ganharam diversos prêmios (só nas premiações de ficção científica foram cinco Hugo, seis Nebula e nove Locus). A autora ainda fez um discurso profundo e sincero sobre a importância de darmos mais liberdade aos escritores de ficção, justamente quando foi premiada com uma medalha de distinção pela contribuição à literatura americana no National Book Award e também fez questão de deixar muito claro que sua vida na escrita se iniciou ao perceber que os livros sempre traziam um único assunto: Homens brancos conquistando coisas com suas espadas.
Falando sobre conquistas, Ursula não se dobrava. Em uma carta ao editor John Radziewicz, em 1987, vemos uma mulher sendo convidada pra uma grande e importante série de livros e dizendo verdades doídas sobre a ausência de mulheres naquele “clube” de escritores, que – pra piorar – tinha “um tom de autopromoção”. Imaginem só, uma mulher, escritora de ficção científica, negando (a um conhecido nome do mercado editorial) participar de uma importante coleção, em mil novecentos e oitenta e sete. 1987.
Prezado Sr. Radziewicz,
Eu até posso me imaginar em um livro em que Brian Aldiss, como era de se esperar, zombou do meu trabalho, porque aí sim eu poderia me preparar para ser magnânima*.
Mas, na verdade, eu não consigo me imaginar contribuindo para esse livro, o primeiro de uma coleção e, portanto, o “carro-chefe” desse projeto, que não só não contém sequer uma mulher em sua coletânea, como também tem um tom de autopromoção, exclusivamente masculino, como um clube, ou um vestiário. Isso não seria magnanimidade, mas tolice. Cavalheiros, eu simplesmente não pertenço aqui.
Sinceramente,
Ursula K. Le Guin 
Justamente por isso, acredito piamente que trata-se de uma das piores perdas dos últimos tempos. Mas, que bom que não está tudo tão perdido assim. Ainda temos livros, entrevistas, contos, artigos e tantas outras literaturas dessa mulher que mexeu tanto com nosso imaginário. O importante é divulgarmos sua palavra e continuarmos nessa realidade não real, pelo menos por enquanto.